Enquanto estava lendo o blog do Aurélio Araújo (Around the World) em que ele fala dos casos de HIV em Moçambique, me bateu o pavoroso sentimento de impotência misturado com um pouco de desumanidade. Sim, impotência e desumanidade. Neste fim de semana assisti ao filme “O Jardineiro Fiel”, filme que mostra a realidade do Quenia, que é muitíssimo parecida com essa. O que senti agora, lendo o blog e lembrando do filme, foi um sentimento de descaso com os seres humanos. Enquanto eles lá, sofrendo, eu aqui, no conforto do escritório, com o ar condicionado ligado, tomando um copo de café bem quente, e muitas vezes com o fone de ouvido ligado escutando música.

O assunto pode até parecer bobo e sem fundamento. Todo mundo é ensinado desde criança a “olhar para os lados antes de atravessar”. Lembro de quando era guri que a minha mãe vivia dizendo isso. Sempre, ao sair de casa, ela dizia: olha bem antes de atravessar. Acho que é um discurso padrão das mães. Todas elas dizem isso, sempre.
Mas aparentemente muita gente não aprendeu direito a lição. Vejam bem, eu moro em Porto Alegre, cidade com pouco mais de 2 milhões de habitantes. Uma cidade considerada grande, mas ainda assim menor do que algumas outras no Brasil. Para chegar ao trabalho, levo de 15 a 20 minutos de ônibus. Descontando paradas e sinaleiras, dá pra se dizer que o deslocamento demora 10 minutos.

Hoje é dia dos pais. Parabéns a todos os pais desse mundão afora. Parabéns aos pais de sangue, aos pais de criação, aos pais emprestados, aos que são pais e não sabem, aos que queriam ser pais e não são, às mães que também são pais, aos irmãos que muitas vezes fazem o papel de pai, aos avós que também bancam o pai de vez em quando. Dê um grande beijo e um abraço bem apertado no seu pai, seja ele como for. Trate-o bem, dê presentes, agrade-o de todas as formas possíveis, nunca se sabe quando ele não estará mais aí do seu lado.
Tá, tudo muito lindo, muito bonito. Mas e amanhã? E os outros dias? Eu não concordo muito com essa coisa de “dia dos pais”, “dia das mães”, “dia do amigo”, e etc. Acho, sim, que dia dos pais, dia das mães e o dia de todo mundo são todos os dias. Não é necessário ter o dia do pai para lembrar que eu tenho pai. Ou dia da mãe para almoçar com ela. Ou dia dos namorados pra lembrar que eu tenho uma.

Relacionamentos mais reais que virtuais
Pessoal July 23rd, 2007Dia desses, o Renato me ligou dizendo que seu computador havia estragado e ele queria trazer uma peça aqui em casa para testar no meu. Neste dia, eu e ele nos encontramos pessoalmente depois de algum tempo, meses para dizer o mínimo. O detalhe é que eu e o Renato nos conhecemos há mais de 10 anos e temos uma grande estima pelo outro. Além disso, ele mora a cinco minutos da minha casa, “na rua de cima” para dizer a verdade. Porém, ficamos mais de dois meses sem nos ver, apesar de nos falarmos todos os dias. Mas não por telefone. Pela internet. Mais precisamente pelo MSN.
Tenho notado que hoje em dia, não encontramos mais os amigos como fazíamos antigamente. Converso com a maioria dos meus amigos todos os dias, mas vejo-os muito pouco. Contamos nossos problemas, nossas dores, abrimos o nosso coração, tudo pela internet. O encontro pessoal, o aperto de mão, virou algo raro.
Com a vida corrida que temos hoje em dia é praticamente impossível estar com as pessoas. Estamos em contato direto apenas com aqueles que trabalham conosco, estudam conosco ou mesmo que moram na mesma casa (e olhe lá, muitas vezes fiquei dois, três dias sem ver meu pai ou minha irmã, mesmo morando na mesma casa). Trabalho, estudo e outros compromissos simplesmente tomam todo o nosso tempo, que acaba sobrando pouca ou nenhuma chance para rever amigos e colegas.

O que fizeram com o amor?
Pessoal July 9th, 2007Quando sentei para começar a escrever este artigo, eu tinha em mente o que escrever, mas não sabia qual o sentimento que toma conta de mim quando penso nesse assunto. Não sei se fico revoltado, triste, desesperançoso, não sei. Não sabia e continuo sem saber. Isso porque vou falar de um sentimento que, para mim, é um dos principais sentimentos do ser humano, aquele que rege a sua vida e as suas atitudes. No caso, não vou falar dele, mas sim da falta dele.
Eu sou uma pessoa, por natureza, muito carente. Quando não estou namorando alguém é muito provável que eu me sinta depressivo, carente e sozinho. Isso já faz parte de mim e eu cansei de lutar contra. Já me disseram para sair, fazer festa, beber. E eu fiz. Por pouco tempo, mas fiz. E vi que aquilo ia contra a minha natureza. Então resolvi parar. Se o meu programa favorito no sábado à noite é ficar em casa lendo um livro, isso significa que é assim que eu sou. Não sou contra sair, até gosto, mas de vez em quando. Resolvi então me assumir (não, mãe, não virei homossexual), me aceitar como eu sei e fazer as coisas que eu gosto, do jeito que eu gosto.
Toda essa volta foi simplesmente pra falar que eu gosto de estar com alguém, prefiro ter uma única pessoa ao meu lado escrevendo uma linda história de amor (eu sei que isso só existe no cinema, mas enfim…) do que estar “pegando” várias e não ter nada sério com nenhuma.

Estava colocando os feeds em dia, e através de um e outro, cheguei ao post da Janaína, onde ela fala sobre o preconceito às pessoas acima do peso, ou ditas, gordas. Mas se vocês acham que só pessoas acima do peso é que ouvem gracinhas, estão bem enganados. Os magrinhos também escutam, e não é pouco.
Acho que o assunto de preconceito e resistência aos que diferem do “socialmente” correto já foi bastante debatido, minha única intenção aqui é mostrar que a maioria de nós sofremos com preconceito, seja de uma forma ou de outra. Vou narrar dois fatos que ficaram bem vivos na minha memória. Eu normalmente faço questão de esquecer esse tipo de coisa, mas um deles ficou bem impregnado na minha cabeça, o outro eu lembro “mais ou menos”. De qualquer forma, vamos a eles:
Eu era adolescente ainda, deveria ter uns 14 ou 15 anos, talvez um pouco menos, não lembro ao certo. Estava no colégio e alguns colegas resolveram me aprontar uma: chegaram para uma das gurias mais bonitas da sala e disseram que eu estava interessado nela e que queria ficar com ela. Aqui abro um parêntese, que mesmo ela sendo bonita eu não sentia a mínima vontade de ter alguma relação com ela. Eu só fui descobrir que tinham falado isso pra essa guria quando passei por ela e ela fez o seguinte comentário: “Nunca que eu ia ficar com esse seco!”. Mesmo não sabendo de nada, me senti mal com o comentário, afinal, sempre achei que eu era muito mais do que o meu corpo aparenta. Depois, mais tarde, é que descobri o que tinham feito e entendi o comentário. Ainda assim, a guria poderia ter falado apenas que não queria, mas, enfim …
Magros também sofrem na praia. Experimente você, sendo bem magro e bem branco, colocar uma bermuda e sair para “desfilar” à beira-mar. Para fazer isso a melhor coisa é ir com um fone no ouvido escutando uma música bem alta, para não ter que ouvir nenhuma gracinha. Magro, branco e de óculos. Ninguém merece.
Lembro também quando eu era bem novo, devia estar na sétima série, e que um determinado programa infantil tinha uma música que se chamava “A dança das caveiras” ou coisa parecida. A letra dizia algo assim: “Quando o relógio bate à uma, todas as caveiras saem da tumba” … e assim prosseguia pelas doze horas do relógio. O que me vem à memória é um punhado de colegas dançando e cantando a tal música, todos me olhando e rindo com cara de deboche.
Bem, eu sei que essas coisas não são tão graves quanto a outras já relatadas, e até porque na maioria, foram todas feitas por “crianças”, enquanto outras feitas a pessoas gordas, deficientes ou homossexuais são muito piores. Mas isso não quer dizer que não tenha sido ruim e boa parte dos complexos e medos que ainda tenho hoje é fruto de tantas e tantas “brincadeiras de crianças” que foram feitas comigo há algum tempo atrás.
Como se vê, se uma forma ou outra, o ser humano é incapaz de respeitar o seu semelhante, apenas porque este não se encaixa no modelo criado pelas pessoas. E isso ocorre em todas as idades, com todas as pessoas.
